Os nomes da representatividade LGBTQ+ na mídia coreana

A luta por direitos pela população LGBTQ+ cresce e ganha visibilidade na Coreia do Sul. A exemplo do diretor Kim Jho Kwang-soo e seu marido Kim Seung Hwan, que numa cerimônia histórica celebraram o primeiro casamento gay coberto pela grande mídia na Coreia, em 2013. Mas nem tudo são flores, o casal teve de travar uma batalha na justiça para que seu casamento fosse reconhecido pelo país, pedido que foi negado. Até os dias de hoje, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou uniões estáveis de mesmo tipo não são possíveis dentro das leis coreanas.

Mesmo com uma crescente no movimento das minorias sexuais da Coreia desde os anos 90, esse tipo de manifestação ainda sofre com um conservadorismo predominante no país. Pesquisas recentes mostram que mais da metade da população coreana ainda é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Com toda a negação vindo de todas as partes da indústria do entretenimento, na Coreia a repressão a artistas que tem a coragem de se assumir ou até mesmo demonstrar apoio à causa LGBTQ+, ainda é grande.

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As dificuldades da representação LGBTQ+ no entretenimento coreano ainda são muitas, mas em meio a esse cenário, surge um grupo pequeno, mas expressivo. São pessoas que seguem fazendo a diferença na tentativa de mudar o cenário coreano acerca da comunidade LGBTQ+ e a visão pejorativa atrelada a ela. Seja com seu apoio à comunidade, seja emprestando sua visibilidade à causa ou até mesmo se assumindo publicamente, num ato de coragem diante de uma sociedade ainda conservadora. A luta pela mudança de visão vem dos mais variados pontos.

Conquistando espaço, estes são alguns dos nomes LGBTQ+ expressivos na representatividade da comunidade dentro da grande mídia sul coreana.

Harisu

Muita gente não sabe, mas a Coreia do Sul já teve uma mulher trans figurando no topo de seus charts. Isso aconteceu no início dos anos 2000, quando a até então novata no Kpop, Harisu, lançava seu álbum “Temptation” (2001). Ela ficou extremamente famosa após estrelar um comercial de cosméticos e o álbum, que lhe rendeu uma atenção descomunal na Coreia, fez com que Harisu se tornasse um fenômeno na indústria do entretenimento coreano.
A visibilidade lhe rendeu contratos publicitários, aparições na TV e, claro, mais lançamentos musicais de sucesso. Casou-se em 2007 com o rapper Mickey Jung, e tiveram 10 anos de uma união feliz, segundo a própria em uma entrevista a TV coreana.
Harisu ainda é uma personalidade bastante conhecida na Coreia. Hoje ela segue principalmente com sua carreira de modelo, influencer digital, além de recentemente comemorar seu aniversário de debut com um lançamente musical inédito. Harisu segue como símbolo de uma cultura em mudança e do espaço midiático reservado aos LGBTQ+, sobretudo para as pessoas trans. O sucesso dela incentivou, mais tarde, o debut primeiro grupo formado totalmente por mulheres trans na Coreia, o girlgroup Lady.

No último ano, Harisu lançou o MV para a música “Make Your Life”. Confira:

Holland

Holland causou muita repercussão quando debutou como um dos primeiros artistas LGBTQ+ assumidos do Kpop. Gay e defensor dos direitos LGBTQ+, desde o debut Holland costuma retratar romances homossexuais e a vida queer em seus MVs.
Apesar de seu clipe de debut “Neverland” ser taxado como 19+ (apenas para maiores de idade) na Coreia do Sul, por conter um beijo entre ele e o ator que interpretava seu par romântico, isso não limitou o alcance de seu trabalho a nível mundial. Muito da projeção crescente do artista pode ser vista em seu fandom internacional. Holland pode ser visto constantemente interagindo com os fãs em inglês e dando entrevistas para veículos jornalísticos e de entretenimento internacionais.

Recentemente, no início deste ano, Holland lançou o MV de Nar_C.

MRSHLL

Assim como Holland, Marshall Bang (ou MRSHLL) também se assumiu recentemente, em uma entrevista para a revista Time Out, no ano de 2015. Artista da FeelGhoodMusic, mesma gravadora de lendas da música coreana como TigerJK, Yoonmirae e Bizzy (MFBTY), MRSHLL vem quebrando barreiras no R&B coreano ao tratar sua homossexualidade como algo simples em sua imagem como artista.
Nascido nos Estados Unidos, ele nunca escondeu sua orientação sexual, mas também não fazia questão de demonstrá-la: segundo ele, apenas permanecia em silêncio sobre isso e deixava que as outras pessoas deduzissem tudo através de seu modo de agir e falar.
Em entrevista à Billboard, Marshall também comenta sobre a pressão que sofre por ser declaradamente gay em um mercado em que tão poucos podem dizer o mesmo: “Não posso ser um modelo perfeito, pois sou humano e vou cometer erros”, diz ele, “se as pessoas querem me colocar sob essa categoria [de ‘o único gay da indústria’], então que seja, porque tenho orgulho de ser, e não negaria essa responsabilidade. Se posso ajudar as pessoas de forma positiva, então é maravilhoso!”.

No início deste mês, MRSHLL lançou o single “Pancake”:

Hong Seok-Cheon

No início do ano 2000, tudo parecia estar dando certo para Hong Seok-Cheon: ele tinha um bom emprego como host num programa infantil, era conhecido por toda a Coreia pelos sitcoms que participava nos anos 90, além de outros contratos em estações de rádio. Foi então que, ao ser entrevistado em um talk show daquele mesmo ano, ele tomaria a decisão que mudaria o rumo de sua vida: Hong Seok-Cheon se tornou a primeira celebridade assumidamente gay da Coreia do Sul.
No dia seguinte, o mundo do até então bem sucedido ator, desmoronou de forma estrondosa: ele foi demitido de todos os seus trabalhos na TV e no rádio, ninguém mais atendia as suas ligações e sua família implorou pra que ele mudasse de ideia e se retratasse.
Seok-Cheon passou a beber e fumar compulsivamente, enquanto nada parecia ser uma solução plausível. A vida lhe deu uma segunda chance e ele deu a volta por cima: hoje é dono de uma das mais famosas redes de restaurantes da Coreia do Sul, frequentada por várias celebridades, incluindo ídolos do Kpop. Adotou os dois filhos de sua irmã, após ela ter se divorciado e hoje os quatro moram juntos numa mesma casa.
O espaço de Seok-Cheon na TV coreana também também foi restaurado. De certa forma, ele é um dos “queridinhos” das celebridades. A opinião pública acerca dele e de sua sexualidade já não é mais tão negativa e ele sempre aparece em programas, reality shows e talk shows coreanos.

Uma mudança de paradigmas à vista? Talvez, mas nas palavras do próprio Hong Seok-Cheon “é preciso viver de forma honesta, se quero viver de forma feliz”.

Choi Han Bit (Mercury)

Atriz, modelo e cantora, Choi Han Bit também é parte da onda recente da visibilidade LGBTQ+ na Coreia. Após participar do reality show Korea’s Nest Top Model, em 2012, Choi Han Bit ganhou muito da atenção do público coreano e chegou a lançar o álbum solo “Not My Style”, em 2015.
No ano seguinte, Choi Han Bit ganhava notoriedade novamente ao debutar no grupo feminino Mercury, ao lado de três mulheres cisgênero. Por mais que nenhuma informação sobre um disband oficial tenha chegado a mídia, os fãs acreditam que o grupo se dissolveu ainda em 2016.
Em questão de direitos legais, desde 2006 (quando realizou sua cirurgia de resignação sexual) Han-bit é reconhecida legalmente como uma mulher coreana.
O girlgroup estreou com a música “Don’t Stop” e inclusive já apareceu por aqui no canal da KoreaIN mandando mensagem para os fãs brasileiros:

Enquanto isso no Brasil…

Mesmo com todos os problemas de visibilidade LGBTQ+ na Coreia do Sul, não podemos nos esquecer que o Brasil, mesmo sendo um país onde as coisas acontecem de forma diferente, também tem seus problemas.

O filho da cantora Gretchen, Thammy Miranda, enfrenta resistência até os dias de hoje para ser reconhecido como homem, mesmo dentro da grande mídia brasileira. Gretchen já saiu em defesa do filho diversas vezes na mídia , e luta dia apos dia para que Thammy seja respeitado pelo homem que é, e não ser rotulado pelo o que os outros desejam que seja.

Outro exemplo é o da drag queen Pabllo Vittar, que mesmo já tendo esclarecido diversas vezes como funciona sua expressão artística, ainda é confundida (em alguns casos até propositalmente) com uma mulher trans.

Mesmo tendo uma realidade um pouco mais aberta e livre, o publico LGBTQ+ do Brasil também trava suas batalhas em busca de espaço midiático. O intuito é poder alavancar a representatividade em novelas, séries, propagandas e tv shows, para que a aceitação da comunidade e a quebra do esteriótipo dessas pessoas, traga e elas um lugar igualitário dentro da sociedade.

A realidade LGBTQ+ ainda tem muito o que evoluir, não só na Coreia e no Brasil, mas em todo o mundo. Ainda existem países onde a LGBTQfobia tem apoio e reforço das leis e onde essa comunidade ainda e constantemente perseguida. E é em momentos como este mês de junho, mês da Visibilidade LGBTQIA+, que se deve celebrar, sobretudo a existência e orgulho de lutar por espaço social. Não se deve deixar de lutar pois, por mais que em alguns momentos sejamos poucos, é através de poucos que se fomenta a mudança em muitos.

Você conhece outros representantes LGBTQIA+ coreanos na mídia tradicional? Conta pra gente!

Tradução e adaptação: Jô Mesquita
FONTES: Soompi; Kpop Starz; TIME; Korea Times; Korea Post; Billboard
Não retirar sem os devidos créditos.